Amelia Grossman
De onde eles vêm é o novo livro de Jeferson Tenório que vem na esteira do seu último, vencedor do Jabuti em 2020, O avesso da pele. O mais recente também foi publicado pela Companhia das Letras e aborda temas de racismo, privilégio e mobilidade social. Para quem quer entender melhor uma parte da sociedade brasileira que historicamente não tem tido oportunidades de dizer a própria história, este livro não vai decepcionar. Embora também fique avisado que ele não vai agradar.
A história segue Joaquim, um dos primeiros “cotistas” que estão começando a estudar na faculdade das Letras em Porto Alegre. O programa de cotas foi introduzido no ensino superior no Brasil, desde 2012, com o objetivo de reparar desigualdades sociais e abrir portas educacionais. Vale mencionar que o Brasil já tem um sistema gratuito e laureado de Universidade Pública, embora a vaga seja notoriamente difícil de se conquistar sem apoio. A ideia é diminuir, pelo menos, os obstáculos financeiros. Mesmo que os cursos sejam gratuitos e o âmbito acadêmico pareça justo, equitativo e acessível, Joaquim entra sob um peso invisível, espreitando o que nem ele parece entender, mas o guia mesmo assim.
O livro é dividido em quatro partes. A primeira acontece na infância do Joaquim e flui como se fosse recontada pela própria criança. Tem uma cena, por exemplo, onde ele estava correndo atrás da sua mãe de madrugada, os dois fugindo de casa, sem nós, leitores e até mesmo o Joaquim, sabermos os motivos. Na outra cena, ele estava entregando os “doces” pelo bairro com instruções de não olhar dentro da cesta. Você pode entender que, desde o início do livro e
também da vida dele, o personagem de Joaquim tem uma ingenuidade das malandragens no seu mundo. O leitor quer protegê-lo, quer guiá-lo. Por causa disso, durante as próximas três partes, em que acontece o seu amadurecimento, é incômodo só de olhar enquanto ele luta, desiste do sonho de virar escritor e no final se resigna a sua dura realidade. Além disso, a história de Joaquim, na verdade, não é a sua viagem de ser escritor, é uma história sobre os desafios e as injustiças veladas que o atrapalham.
Joaquim é negro e vem de uma cidade de classe baixa, da região metropolitana da capital gaúcha. Ele é órfão e, além disso, é um dos principais cuidadores da avó, que está sofrendo demência. Mesmo assim, eu admiro o fato de Tenório deixar claro que Joaquim não é só um veículo de discurso político: os desafios constantes que ele enfrenta na história não são causados diretamente pela cor da sua pele ou da sua classe. Ninguém fala na cara dele que ele não é bem vindo nos lugares onde ele entrou—todo mundo e todos os sonhos dele parecem acessíveis (como o livro mesmo). Na verdade, a maioria dos problemas vem de fatores complexos, quais sejam, de ser órfão, sem dinheiro, sem rede de apoio, com responsabilidades profundas, sem aconselhamento e estabilidade — a lista continua. Tudo combina para soterrar a esperança e a capacidade de Joaquim. A ligação entre a luta dele e a luta das pessoas negras existe nesse livro, mas é mais profundo, mais escondido pelo Tenório no enredo. O foco é no dia a dia dele enquanto o contexto social fica no plano de fundo. Eu gosto muito dessa organização na trama. A falta de discurso direto deixa o pensamento da falta de justiça mais pesado.
No final, essa obra é muito acessível. Não precisa passar debaixo da roleta como se fosse Joaquim para começar. Não precisa passar no vestibular para entender os temas. O livro está aberto para todos. Não é difícil de ler, e Tenório não usa muitas palavras avançadas. Não
apresenta personagens obscuros, nem uma história misteriosa. É um bom livro para iniciantes da língua portuguesa. Ao mesmo tempo, é muito difícil digeri-lo. Ele tem um gosto complexo: suave, mas com sabores que desestabilizam sua certeza, sua esperança na simplicidade da vida. No final, não posso dizer que eu gostei desse livro, ou que eu entendi tudo o que Tenório quis dizer, mas eu o admiro pelo jeito como construiu essa história e o agradeço por deixá-la aberta para todos lerem, seguirem e pensarem. O subtexto e as razões que motivam o tema são complexos e provocam conversas instigantes. Se eu conseguisse explicar melhor, numa resenha só, os pensamentos ricos que Tenório traz, o livro dele não precisaria existir. Mas, porque eu não pude, tem um livro te esperando para ler.




















































