ARTE, OU NÃO

Por Andrew Jenner

Há uma praça do lado do meu prédio, cujos muros são cobertos de intervenções de grafite. Desde que eu cheguei em Porto Alegre, eu achei que essa arte da rua dá vibrância e um caráter bem legal à praça. Os artistas pintaram em cores brilhantes, em estilos diferentes. Há cenas do dia a dia, há imagens de criaturas fantásticas e desenhos geométricos.

Na cidade existem milhões de paredes fazias. Não há nenhuma outra parede decorada exatamente assim. Nossa praça aqui no bairro tem uma personalidade única. Além dos muros brancos, que tem em cada cidade, encontra-se em Porto Alegre muitos exemplos legais de grafite e isso é um das coisas que me faz gostar muito daqui.

Entre as obras em nossa praça, há um trecho em especial que me chamou desde a primeira vez que eu li. É um slogan, escrito em destaque: “Admiradores, grafite é arte, mas pixar faz parte”. Eu não conhecia a palavra “pixar”. Na verdade eu não conhecia muitas palavras portuguesas nessa época, mas esse é um outro assunto. Então, embora eu não entendesse o que era “pixar”, eu já tinha visto muita pixação. Em algumas avenidas da cidade, me pareceu que quase todas as fachadas eram cobertas em letras enormes e pretas. O que me chamou atenção foi a forma delas, bem recortadas, como se os vikings tivessem invadido Porto Alegre. Eu gostei do grafite. Eu não gostei da pixação, apesar de não saber o nome dela.

Então, os meses de vivência aqui em Porto Alegre foram me ensinaram sobre essa característica da cultura urbana no Brasil. Aprendi que um dos objetivos dos pixadores é dar voz aos sem-vozes. A ideia é legal. A estética da forma, não de propósito, eu acho.

Um dia, atravessando a praça, indo ao supermercado, eu li e finalmente entendi a frase do artista aí na parede, no meio dos grafites bonitos. Me senti o autor falando diretamente para mim, admirado de grafite e cético de pixação.

A linha entre o que é considerado arte e não arte não é fixa. Eu diria que muitas intervenções de que eu gosto, meu pais talvez não gostem. E tenho certeza absoluta que meus avós não curtiriam nenhuma delas.

As ruas de Porto Alegre são cheias de arte, de paredes pintadas, prédios cobertos em tinta. O grafiteiro que deixou o aviso aos admiradores, como eu, acha que tudo isso é arte. Eu não, mas tudo bem. Cada um, cada um. A diversidade de opinião faz a cidade pintada mais interessante. 

Sobre o autor: Andrew se dedica a arte de escrever há tempos. Desde que chegou ao Brasil, se lançou também a essa arte, agora em português. Ele é aluno do curso de Leitura e Produção de textos da Escola Bem Brasil e produziu esse texto após um debate sobre a arte de rua, sua cosntituição no Brasil e as dimensões culturais aí envolvidas. 

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